

adagio sostenuto (em composição)

…
Te vi na treva,
Te vi na ausência,
Na dor que punge a alma,
Na sombra que tange o corpo,
No silêncio que confrange amigos.
Te vi no passo indiferente dos desavisados,
Na fúria adormecida dos que se dizem tranquilos,
Na memória dos que foram despachados para longe,
Te vi infinitamente maior do que a ciência de estar vivo
Te vi no alívio dos que encontram um porto, qualquer porto,
Te vi no caminho hesitante da lágrima que refresca o rosto
(…)
Te vi no momento em que a luz, outra vez, luz se fez
Te vi onde (…)
No som dos passos das mulheres, o barulho de existir
Te vi nas curvas que o ri faz antes de desenhar a foz
Te vi na certeza frágil do primeiro vôo do pássaro,
Te vi no gosto do vinagre, que já não sabe a vinho
Te vi na iminência do espinho arrancado
Te vi na impaciência dos disciplinados,
Mas era sonho, e rápido, esqueci o enigma
que elide tua face e pronuncia teu nome.
Agora, reduzido à condição de ninguém,
renunciada toda procura,
(…)
…

crônica policial

…..
A taça,
o gesto em falso,
o gosto de ameaça.
O olhar que desfere
o vôo torto,
não tão ágil,
que próximo da promessa,
desaba frágil
num chão de ruínas.
A suposta vítima,
única testemunha,
se escusa com enjôo,
e sepulta, ali mesmo,
do outro,
o instinto de existir.
Anjo coxo,
ri-se ele agora
da própria morte,
vivendo como um irmão
em nossa companhia.
….

soneto
.
Hölderlin
Luz não se vê tão límpida
quanto, inundando a casa,
aquela que extravasa
fugaz de qualquer lâmpada
que, de repente, exalte-
-se e atinja, por um átimo,
à beira do blecaute
mais último, seu ótimo.
Cega ao fulgor, a orelha
talvez capte de esguelha
um ultra-som que, esgar-
çador como um lamento,
provém do filamento
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