Posts de Setembro, 2007

Pastoral
Quando era mais jovem
tinha a certeza
que devia fazer algo da minha vida.
Agora, mais velho,
caminho por vielas
admirando as casas
dos muito pobres:
telhados desengonçados
pátios cheios de
velho arame de capoeira, cinzas,
móveis desconjuntados;
as cercas e os anexos
construídos com aduelas
e tábuas de caixotes, todos,
com alguma sorte,
sujos de um verde-azulado
cuja patina
me agrada mais
que qualquer cor.
Ninguém
acreditará que isto
seja tão importante para a nação.
William Carlos Williams – Antologia Breve, Assírio & Alvim, Lisboa, 1995;
seleção e tradução de José Agostinho Baptista.


acima do silêncio o verde
silêncio e uma terra branca dentro
e.e. cummings – Tradução Mario Domingues, Ed. UnB

Da cor à cor inexistente

… Que venha um dia o seu livro de tanta riqueza estética e finura de percepção,
a atestar a mescla de artista e humanista, que enriquece a nossa maneira de ver,
desvendando-nos os sutis segredos do mundo.
— Carlos Drummond de Andrade Carta a Israel Pedrosa, Rio, 1975
Colaboração de Gilson Camargo


Tanta coisa depende
de
um carrinho de mão
vermelho
reluzente de gotas de
chuva
ao lado das galinhas
brancas.
William Carlos Williams
in Antologia Breve – seleção e tradução de José Agostinho Baptista
Ed. Assírio&Alvim, Lisboa, 1995


Atrás daquela montanha
tem uma flor amarela;
dentro da flor amarela,
o menino que você era.
Porém, se atrás daquela
montanha não houver
a tal flor amarela,
o importante é acreditar
que atrás de outra montanha
tenha uma flor amarela
com o menino que você era
guardado dentro dela.

Pantone Literário

Nem só pintores, fotógrafos, arquitetos e designers lidam com esses fenômenos da luz a que chamamos cor. Poetas e escritores, também se debruçam sobre as impressões subjetivas que as cores, seus tons e matizes, são capazes de provocar em cada um de nós, E que, em muitos casos, não conseguimos expressar em palavras. Conversando com amigos sobre o assunto e citando alguns exemplos, como o poema de Carlos Drummond de Andrade “A Morte do Leiteiro”, ouvi de um deles, o Marcos Pamplona, a sugestão de se fazer um pantone literário. Mesmo dita em tom brincadeira, a idéia não me saiu da cabeça desde então. E é o que começo a pôr em prática, pelo menos para efeito de registro, agora aqui no Macanudo. Pra quem não sabe, Pantone é a marca de um catálogo impresso de cores muito utilizado por profissionais da arquitetura e do meio gráfico, principalmente. Talvez um dia isso vire projeto e se transforme em livro com materiais inéditos de novos autores. Mas por ora, vamos com o que temos por aí, o que é não é pouco. Pra começar, escolhi um autor que considero um poeta disfarçado de prosador, o cronista Rubem Braga com seu “O Pavão”. É sublime. E magnifíco. Bom, foi dada a largada. Aguardem outros autores e obras para as próximas edicões, incluindo, é claro, Drummond de Andrade.
O PAVÃO
Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas. Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade. Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.
O Pavão: crônica extraída do livro “200 crônicas escolhidas”, Editora Record - Rio de Janeiro, 2005, pág. 363. Agradecimentos à Janaina pela dica.










