
Posts de Novembro, 2009

adagio sostenuto (em composição)
…
Te vi na treva,
Te vi na ausência,
Te vi no esquecimento
Te vi na dor que punge a alma,
Te vi na sombra que tange o corpo,
Te vi no silêncio que confrange amigos
Te vi no passo indiferente dos desavisados,
Na fúria adormecida dos que se dizem tranquilos,
Na memória dos que foram despachados para longe,
No som dos passos das mulheres, o barulho de existir,
Te vi infinitamente maior do que a ciência de estar vivo,
Te vi no alívio dos que encontram um porto, qualquer porto,
Te vi no caminho hesitante da lágrima que refresca o rosto,
Te vi na suave curva que o rio faz antes de desenhar a foz,
Te vi no momento em que a luz, outra vez, se fez luz,
Te vi na frágil certeza do primeiro vôo do pássaro,
Te vi no gosto do vinagre, que já não sabe a vinho,
Te vi na incontinência do filho resmungando o pai,
Te vi na hiper-iminência do espinho arrancado,
Te vi na sutil impaciência dos disciplinados
Te vi no azul da tarde que se encerra
(…)
Te vi no tremeluzir da labareda
Mas era sonho e rápido esqueci
o enigma que elide tua face
e pronuncia teu nome sem
que se ponha dúvida
no seu existir.
(…)
…

crônica policial

…..
A taça,
o gesto em falso,
o gosto de ameaça.
O olhar que desfere
o vôo torto,
não tão ágil,
que próximo da promessa,
desaba frágil
num chão de ruínas.
A suposta vítima,
única testemunha,
se escusa com enjôo,
e sepulta, ali mesmo,
do outro,
o instinto de existir.
Anjo coxo,
ri-se ele agora
da própria morte,
vivendo como um irmão
em nossa companhia.
….

soneto
.
Hölderlin
Luz não se vê tão límpida
quanto, inundando a casa,
aquela que extravasa
fugaz de qualquer lâmpada
que, de repente, exalte-
-se e atinja, por um átimo,
à beira do blecaute
mais último, seu ótimo.
Cega ao fulgor, a orelha
talvez capte de esguelha
um ultra-som que, esgar-
çador como um lamento,
provém do filamento
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