
Nem só pintores, fotógrafos, arquitetos e designers lidam com esses fenômenos da luz a que chamamos cor. Poetas e escritores, também se debruçam sobre as impressões subjetivas que as cores, seus tons e matizes, são capazes de provocar em cada um de nós, E que, em muitos casos, não conseguimos expressar em palavras. Conversando com amigos sobre o assunto e citando alguns exemplos, como o poema de Carlos Drummond de Andrade “A Morte do Leiteiro”, ouvi de um deles, o Marcos Pamplona, a sugestão de se fazer um pantone literário. Mesmo dita em tom brincadeira, a idéia não me saiu da cabeça desde então. E é o que começo a pôr em prática, pelo menos para efeito de registro, agora aqui no Macanudo. Pra quem não sabe, Pantone é a marca de um catálogo impresso de cores muito utilizado por profissionais da arquitetura e do meio gráfico, principalmente. Talvez um dia isso vire projeto e se transforme em livro com materiais inéditos de novos autores. Mas por ora, vamos com o que temos por aí, o que é não é pouco. Pra começar, escolhi um autor que considero um poeta disfarçado de prosador, o cronista Rubem Braga com seu “O Pavão”. É sublime. E magnifíco. Bom, foi dada a largada. Aguardem outros autores e obras para as próximas edicões, incluindo, é claro, Drummond de Andrade.
O PAVÃO
Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.
Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.
Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.
O Pavão: crônica extraída do livro “200 crônicas escolhidas”, Editora Record - Rio de Janeiro, 2005, pág. 363. Agradecimentos à Janaina pela dica.