
In Pantone Literário, Poesia on 23/10/2007 por Marcelo De Angelis
Na Casa das Palavras, sonhou Helena Villagra, chegavam os poetas. As palavras, guardadas em velhos frascos de cristal, esperavam pelos poetas e se ofereciam, loucas de vontade de ser colhidas: elas rogavam aos poetas que as olhassem, as cheirassem, as tocassem, as provassem. Os poetas abriam os frascos, provavam palavras com o dedo e então lambiam os lábios ou fechavam a cara. Os poetas andavam em busca de palavras que não conheciam, e também buscavam palavras que conheciam e tinham perdido. Na Casa das Palavras havia uma mesa de cores. Em grandes travessas as cores eram oferecidas e cada poeta se servia da cor que estava precisando: amarelo-limão ou amarelo-sol, azul do mar ou de fumaça, vermelho-lacre, vermelho sangue, vermelho-vinho….
Eduardo Galeano – O Livro dos Abraços, tradução de Eric Nepomuceno – Editora L&PM, Porto Alegre, 2. ed. 2007

In Pantone Literário, Poesia on 26/09/2007 por Marcelo De Angelis

Quando era mais jovem
tinha a certeza
que devia fazer algo da minha vida.
Agora, mais velho,
caminho por vielas
admirando as casas
dos muito pobres:
telhados desengonçados
pátios cheios de
velho arame de capoeira, cinzas,
móveis desconjuntados;
as cercas e os anexos
construídos com aduelas
e tábuas de caixotes, todos,
com alguma sorte,
sujos de um verde-azulado
cuja patina
me agrada mais
que qualquer cor.
Ninguém
acreditará que isto
seja tão importante para a nação.
William Carlos Williams – Antologia Breve, Assírio & Alvim, Lisboa, 1995;
seleção e tradução de José Agostinho Baptista.

In Pantone Literário, Poesia on 21/09/2007 por Marcelo De Angelis

Tanta coisa depende
de
um carrinho de mão
vermelho
reluzente de gotas de
chuva
ao lado das galinhas
brancas.
William Carlos Williams
in Antologia Breve – seleção e tradução de José Agostinho Baptista
Ed. Assírio&Alvim, Lisboa, 1995

In Pantone Literário, Poesia on 20/09/2007 por Marcelo De Angelis

Nem só pintores, fotógrafos, arquitetos e designers lidam com esses fenômenos da luz a que chamamos cor. Poetas e escritores, também se debruçam sobre as impressões subjetivas que as cores, seus tons e matizes, são capazes de provocar em cada um de nós, E que, em muitos casos, não conseguimos expressar em palavras. Conversando com amigos sobre o assunto e citando alguns exemplos, como o poema de Carlos Drummond de Andrade “A Morte do Leiteiro”, ouvi de um deles, o Marcos Pamplona, a sugestão de se fazer um pantone literário. Mesmo dita em tom brincadeira, a idéia não me saiu da cabeça desde então. E é o que começo a pôr em prática, pelo menos para efeito de registro, agora aqui no Macanudo. Pra quem não sabe, Pantone é a marca de um catálogo impresso de cores muito utilizado por profissionais da arquitetura e do meio gráfico, principalmente. Talvez um dia isso vire projeto e se transforme em livro com materiais inéditos de novos autores. Mas por ora, vamos com o que temos por aí, o que é não é pouco. Pra começar, escolhi um autor que considero um poeta disfarçado de prosador, o cronista Rubem Braga com seu “O Pavão”. É sublime. E magnifíco. Bom, foi dada a largada. Aguardem outros autores e obras para as próximas edicões, incluindo, é claro, Drummond de Andrade.
O PAVÃO
Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.
Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.
Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.
O Pavão: crônica extraída do livro “200 crônicas escolhidas”, Editora Record - Rio de Janeiro, 2005, pág. 363. Agradecimentos à Janaina pela dica.